sábado, 16 de julho de 2011

O Pacto, de Joe Hill


Meses atrás ao vasculhar as estantes da livraria Saraiva atrás de novidades, fui atraído pelo título O Pacto. Quase que imediatamente veio em minha mente o famoso clichê que nós ouvimos por aí de vez em quando... "Fulano de tal fez um pacto com o Diabo" e incrivelmente ao retirar o livro e ler a sinopse da história, era isso mesmo o pano de fundo do livro. Se bem que na história, o que nós temos não é bem um personagem (Ig Perrish) fazendo um pacto com o Diabo, haja vista que o próprio personagem (Ig) se torna o temível ser das trevas. No meu entender há um pacto indiretamente porque Ig não foi atrás do senhor das trevas para selar um acordo.

O livro (319 páginas; R$ 23,90) é de autoria do jovem Joe Hill, que é nada mais nada menos o filho do mestre de suspense e terror Stephen King. O Pacto é a terceira obra do autor pela Sextante, que já publicou a ótima coletânea de contos Fantasmas do Século XXI e o inconstante A estrada da noite (ambos terão futuramente as suas resenhas devidamente publicadas neste humilde blog).

A trama é a seguinte: Ignatius Perrish (chamado carinhosamente de Ig) sempre foi um homem bom. Tinha uma família unida e privilegiada, um irmão que era seu grande companheiro, um amigo inseparável e, muito cedo, conheceu Merrin, o amor de sua vida. Até que uma tragédia põe fim a toda essa felicidade. Merrin é estuprada e morta e ele passa a ser o principal suspeito. Embora não haja evidências que o incriminem, também não há nada que prove a sua inocência. Todos na cidade acreditam que ele é um monstro.

Um ano depois, Ig acorda de uma bebedeira com uma dor de cabeça infernal e chifres crescendo suas têmporas. Descobre também algo assustador: ao vê-lo, as pessoas não reagem com espanto e horror, como seria de esperar. Em vez disso, entram numa espécie de transe e revelam seus pecados mais inconfessáveis (os trechos que mostram essas confissões são surpreendentes e acabam sendo cômicos).

Sozinho, sem ter aonde ir ou a quem recorrer, Ig vai descobrir que, quando as pessoas que você ama lhe viram as costas e sua vida se torna um inferno, ser o diabo não é tão mau assim.

Nesse livro, a escrita de Joe Hill alterna passagens no presente com a pré-adolescência de Ig, sua relação com Merrin e com seu esquisito amigo Lee. Essa estrutura me agrada, pois temos conhecimento da história dos personagens e o porquê de algumas de suas características. Creio que somente algumas dessas passagens ao passado foram desnecessárias e nada trouxe de contribuição a intenção do autor na construção dos personagens.

Um ponto que o autor se aproximou do seu pai foi quanto a sua facilidade para descrever lugares e situações. Há uma riqueza de detalhes que não enfada o leitor, pelo contrário, são tão ricas e bem costuradas que estimulam a imaginação a tal ponto de transportar o leitor para a história e "ver" a cena acontecer ou enxergar o lugar descrito, suscitando os mais diversos sentimentos. É prazeroso quando um livro tem o poder de despertar isso em nós.

Acredito que O Pacto não é um livro de horror, talvez seja mais uma fantasia sombria, com momentos de  humor negro, tensão, revolta e um ou outro trecho genuinamente assustador. É um livro diferente, pois em se tratando do Diabo, ao longo da história, a tênue linha que separa a moral dos bons costumes sempre é ultrapassada e tudo se torna possível, sem ressentimento e sem culpa por parte dos personagens. Há diversas cenas que não serão bem aceitas por pessoas conservadoras e puritanas. Como Hill escreveu numa das partes da história... "[...] o Diabo é tudo, menos indiferente. O Diabo está sempre lá para ajudar os que estão dispostos a pecar, que é outra palavra para "viver". Suas linhas telefônicas estão sempre livres. As telefonistas a postos."

A Sextante desenvolveu um site especial para o livro. Aproveite para acessá-lo e conhecer mais sobre a obra e o autor, que inclusive gravou uma pequena entrevista dando detalhes sobre a história e de como foi o processo de sua elaboração.

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