quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O Desejo de Lilith, Ademir Pascale

Fonte: http://www.cranik.com

Adquirimos uma obra literária por diversos estímulos, tais como: propaganda veiculada em jornais, revistas, sites, televisão e blogs literários, exposição na vitrine de uma livraria ou a leitura de uma resenha. Essa última, com o aumento de espaços para debates sobre livros na internet, tem gerado a meu ver bastante controvérsia.

Um leitor que se propõe a fazer uma resenha acaba sempre - conscientemente ou não - por julgar a obra mediante a utilização de critérios, alguns conhecidos e outros totalmente subjetivos. Isso gera resenhas que ora enaltecem ora rebaixam um mesmo livro. Portanto, tomar a decisão de comprar ou não um livro tão somente com a leitura de uma resenha pode ser perigoso. O que se configura num argumento fraco, numa prosa simplória para um leitor, pode ser maravilhoso e bem construído para outro. Daí a necessidade de também, antes de tirarmos o cartão para comprarmos uma obra, levantarmos mais informações sobre ele, como, por exemplo, o gênero literário do livro, a sua sinopse e, porque não, as informações da pessoa que o escreveu.

E foi justamente com a leitura de várias resenhas sobre o livro O Desejo de Lilith (Editora Draco), do escritor Ademir Pascale, que eu pude perceber o quanto elas são desencontradas. Claro, cada resenhista é um ser humano, e como tal, é um sujeito complexo, dotado de emoções, sentimentos, visões de mundo e gostos diferenciados. Assim, para alguns, o livro é bom. Já para outros, cabe somente uma crítica ácida, espantando um leitor que poderia se interessar pela obra, mas costuma pautar o que lerá apenas pela leitura de uma simples resenha. Independente de todas as resenhas e críticas que eu li sobre o livro, resolvi comprá-lo, pois muito antes das resenhas lidas, já havia me interessado pela sinopse. 

A história gira em torno de um detetive de polícia, que após investigar o caso de um macabro suicídio, se envolve numa história que mudará completamente a sua vida. Na medida em que a investigação avança, o protagonista faz descobertas incríveis acerca do livro mais lido do mundo: a Bíblia Sagrada. Um total de 63 trechos distribuídos pelo livro sagrado revela a existência de um poderoso demônio.

O livro foi escrito em primeira pessoa e em formato de diário. É preciso ter paciência nos primeiros capítulos, pois não há muita ação, porém, esses primeiros capítulos são essenciais para o entendimento de toda a trama. A partir do capítulo 6, o livro começa a ficar mais interessante, com cenas de ação e trechos que chega até dar um medo, como por exemplo, um encontro "cara a cara" com um demônio.

Há um suspense, uma tensão conduzida tão bem pelo escritor até a revelação do tão aguardado desejo de Lilith. Após esse capítulo que contém a explicação do desejo explicado detalhadamente, senti que os capítulos seguintes não conseguiram segurar muito a trama. Em alguns pontos a história ficou meio sem rumo. Já em alguns, o escritor habilmente conseguiu se utilizar da revelação do desejo de Lilith para conectar a fatos ocorridos na Terra e quem passou por eles na década de 1990 irá encontrar uma grande semelhança.

O final é surpreendente e emocionante. O poder de descrição do autor nos faz imaginar perfeitamente a cena. Emociono-me ao sentir e observar esse poder da Literatura, de nos transportar para lugares e cenas que nós nunca vimos e despertar em nós variados sentimentos.

Como pontos negativos, levanto algumas incongruências que numa próxima edição poderiam ser corrigidas. Vale ressaltar que esses deslizes de modo algum atrapalham o bom andamento da história. Consertados, darão, com certeza, mais estreitamento com a realidade:

- O personagem principal ocupa um cargo de detetive e tempos depois é demitido da polícia. Esse cargo no Brasil, na década de 1970, época em que passa a história não existe (o cargo similar é de investigador) e, além disso, em cargos policiais o regime é estatutário e não CLT, ou seja, o funcionário público não é, de forma alguma, demitido. Pode-se haver uma sindicância em alguns casos, que demora anos, até o funcionário ser retirado de uma empresa pública;

- O início da trama se passa em Hortolândia na década de 60 e 70, mas o município somente surgiu em maio de 1991, quando se emancipou de Sumaré;

- Num trecho o protagonista entra facilmente no apartamento de uma pessoa que havia morrido. O local está interditado para perícia, mas mesmo assim o personagem entra sem nenhum problema. Quando verifica que há algumas pessoas se aproximando do apartamento, ele se joga de alguns andares. Cai, não sente muita dor e sai andando um pouco tranquilo pelas ruas de um bairro de São Paulo. Acho que esse trecho poderia sofrer modificações para deixar a cena mais próxima da realidade;

- O vocábulo que se refere ao planeta Terra foi grafado diversas vezes de maneira errônea. Quando o autor se referia ao nosso planeta, escrevia a palavra "terra". Nos últimos capítulos, houve a grafia correta "Terra".

Portanto, gostei muito da história, principalmente nos capítulos em que há a citação de trechos da Bíblia para embasar personagens e encaminhar a trama. Esse aspecto demonstra que o autor é bastante conhecedor dos segredos que há por detrás desse livro tão antigo.

Ah, destaco também o bom e interessante posfácio escrito por Roberto de Sousa Causo, profícuo autor de ficção científica. No texto, o autor comenta as opções feitas por Ademir Pascale para o seu livro em questão.

O livro é o romance de estreia de Ademir Pascale, escritor conhecido por ter organizado muitas antologias e o fanzine TerrorZine. Tempos depois ele também lançou outro romance intitulado Encruzilhada, publicado pela Editora Literata. Não há dúvida que eu estou ansioso para comprá-lo e lê-lo. 

Um comentário:

  1. Você está aqui, venha ver.
    http://turquezzavariedade.blogspot.com.br/2012/10/autores-dos-contos-do-livro-um-pouco-de.html
    Beijos.

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